POR ALAIN ROUSSEAU
Aproveitando um fim de semana em Bruxelas, esta semana vou levá-los para conhecer a Maison Hannon, uma joia da art nouveau.
Localizada no badalado bairro de Saint Gilles, às vezes apelidado de Brooklyn belga, a 20 minutos de metrô da Grand Place, a Casa Hannon foi construída para o casal Hannon, de quem leva o nome, Marie e Edouard, por seu amigo arquiteto Jules Brunfaut em 1902.

Édouard Hannon (1853-1931) era engenheiro, contratado aos 23 anos pelo grupo químico Solvay e enviado para Dombasle, nos arredores de Nancy (Lorraine, França), a primeira fábrica construída no exterior. Casou-se em 1879 com Marie Debard, mas em 1883 foi chamado de volta à sede central em Ixelles, onde reformulou a produção mundial do grupo, o que lhe deu a oportunidade de viajar pela Europa, Rússia e Estados Unidos e dedicar-se à fotografia. Em 1907, Alfred e Ernest Solvay o nomeiam grande dirigente, o único a ocupar esse cargo sem ser da família.
Precursor da fotografia, ele participa da fundação da Associação Belga de Fotografia, que trabalha para elevar esse meio à categoria de arte e ganha, em 1894, a medalha de ouro da primeira exposição Paris-Club, em Paris. Figura principal do movimento na Bélgica, seu trabalho demonstra grande domínio técnico e um olhar ora sociológico, ora documental sobre os temas que fotografa durante suas viagens. Realismo social e arquitetura antiga se misturam com paisagens industriais e sublimações da natureza.
A CASA
Concebida como um universo fechado, onírico e simbolista, a Casa Hannon é a síntese dos gostos, na idade da maturidade, de Marie pela botânica e de Édouard pela poesia, pela Antiguidade e pela tecnologia. A Exposição de Paris de 1900 foi determinante para o casal, que conheceu o francês Émile Gallé, mestre da Art Nouveau. Entusiasmados, pediram ao seu amigo Jules Brunfaut que se inspirasse nas casas de Victor Horta (casa pessoal, hotéis Tassel e Wessinger), de Ernest Blérot (casa pessoal, destruída) e de Octave Van Rysselbeghe e Henry Van de Velde (hotel Otlet) para criar uma obra singular.

Jules Brunfaut, pouco familiarizado com o novo estilo, conseguiu um golpe de mestre ao combinar o estilo beaux-arts com o da modernidade, o art nouveau. A estufa, totalmente construída em metal e aquecida por um engenhoso sistema de aquecimento, se projeta literalmente para a rua e diferencia a casa. Além disso, acostumado ao exercício, o arquiteto coloca na esquina das duas avenidas um baixo-relevo do escultor Victor Rousseau, alegoria do tempo suspenso ao pôr do sol. Esta obra é a chave simbolista que permite compreender a filosofia do interior, inteiramente mobiliado — uma verdadeira exceção — pelos estabelecimentos de Émile Gallé (lustres e mobiliário), repleto de obras contemporâneas realizadas por James Ensor, Victor Rousseau ou Émile Claus.

Os vastos afrescos da mão de Paul Baudouin, discípulo do francês Puvis de Chavannes, estendem-se como tapeçarias na escadaria e na sala de recepção. Neles estão representadas alegorias da maturidade do casal, num decoro antigo, enquanto mármores e mosaicos de grande variedade lhes respondem. Em suma, aqui se reúnem os gostos belgas e franceses, e os de Édouard e Marie. Nesse sentido, podemos falar de uma casa-retrato.

A CRIAÇÃO DO MUSEU
Após a morte da filha do casal Hannon em 1965, a família decide vender o imóvel, que sofreu roubos, danos e vandalismo. Em 1972, Marie Van Mulders-Brunfaut, filha de Jules Brunfaut, alertou a Comissão Real de Monumentos e Sítios e, em 1976, as fachadas e o telhado foram classificados como patrimônio histórico para impedir a construção de um prédio de apartamentos.
Entretanto, com o art nouveau a tornar-se objeto de atenção, o edifício foi visitado inúmeras vezes. Em 1979, o município de Saint-Gilles adquire o imóvel, com a vontade de preservar o edifício, cujo estado de degradação era alvo de muita atenção por parte da imprensa.


Em 1983, o interior foi classificado e uma vasta campanha de renovação foi empreendida após a deteção de caruncho. Foram necessárias várias campanhas de restauração para devolver o seu esplendor original ao edifício: primeiro, a fresca muito degradada da escadaria e, depois, a restauração dos mosaicos, das janelas e da estufa.
O museu foi inaugurado em 31 de maio de 2023.
MOVIMENTO ART NOUVEAU
O art nouveau é um estilo artístico que se desenvolveu no final do século XIX, inicialmente na Bélgica e na França. Ele floresceu na arquitetura e nas artes decorativas. A busca pela funcionalidade era uma das preocupações dos seus arquitetos e designers. Caracteriza-se por formas inspiradas na natureza, onde predominam as curvas, flores, plantas e outros motivos naturais, figuras esguias de mulheres idealizadas com longos cabelos esvoaçantes. Marca também o regresso da cor, tanto na arquitetura como na pintura. Essas são também as características do estilo Mucha, como será chamado na França.
O nome vem de uma loja em Paris, a Maison de l’Art nouveau. No final do século XIX, a art nouveau atingiu todas as artes plásticas – pintura, escultura, artes gráficas, arquitetura e artes decorativas. Em 1900, conquistou toda a Europa, criando uma grande diversidade de estilos por meio da hibridização com as tradições populares de cada país.
Seus principais representantes são os franceses Emile Gallé e Hector Guimard, na Espanha, o catalão Antoni Gaudí, na Áustria, Gustav Klimt e, em Bruxelas, o arquiteto Victor Horta.
Na época da Primeira Guerra Mundial, a art nouveau deu lugar a um estilo mais angular e geométrico, a art déco.

ALAIN ROUSSEAU tem dois amores: Paris e Brasil. Vive na capital francesa hás 30 anos, mas morou e trabalhou em São Paulo durante oito anos. Nunca mais se desligou do país. Apaixonado por arte e gastronomia, ele é o que os franceses chamam de bon vivant, alguém que gosta de descobrir novidades e que vai trazê-las aqui toda semana.