POR ALAIN ROUSSEAU
Embora a Páscoa seja, acima de tudo, uma festa religiosa, ela também é sinônimo de delícias gastronômicas, com a tradição dos ovos de chocolate.
Vamos relembrar uma tradição bem viva, celebrada como deve ser, por três artesãos chocolatiers de Paris !
Origens dos ovos
O costume de oferecer ovos decorados, pintados ou trabalhados já existia na Antiguidade. Como a primavera é a estação do renascimento da natureza, o ovo, representando a vida e o renascimento, foi provavelmente o primeiro símbolo utilizado em rituais que remontam aos tempos mais remotos. Na primavera, os egípcios e os persas, por exemplo, costumavam tingir ovos e oferecê-los para simbolizar a renovação da vida. Na Antiguidade gaulesa, os druidas tingiam os ovos de vermelho em homenagem ao sol.
Mais perto de nós, foi muito provavelmente resultado da proibição imposta pela Igreja Católica até o século XVII de consumir ovos durante a quaresma que surgiu a tradição dos ovos de Páscoa. Como não se podia impedir as galinhas de botarem ovos, guardava-se cuidadosamente esses ovos até a festa da Páscoa a partir da qual era preciso escoar o estoque !
O rei da França Luís XIV transformou o ovo decorado de Páscoa em uma instituição. Por um lado, seus súditos deviam trazer-lhe o maior ovo posto em seu reino durante a Semana Santa e, ele próprio, no dia de Páscoa, cercado por grandes cestas, distribuía pessoalmente ovos pintados com folha de ouro, tanto aos seus cortesãos quanto aos seus criados.
Mas foi no século XVIII, quando o chocolate se espalhou por todas as cortes reais europeias, que alguns tiveram a ideia de encher cascas de ovo vazias com chocolate na época das festas de Páscoa.
O ovo de chocolate de Páscoa havia nascido!
Este ano, três chocolatiers artesanais se destacam para dar vida à tradição.
Para saborear sem moderação!
La Mère de Famille

O primeiro deles é Jacques Monneraud, da La Mère de Famille, a mais antiga chocolateria de Paris, fundada em 1761. Ele se uniu ao ceramista e designer Jacques Monneraud para uma coleção de Páscoa cheia de imaginação. Monneraud decidiu iniciar um diálogo inspirador entre chocolate e cerâmica.
O ex-publicitário, a quem chamam de “o ilusionista da terra”, não cessa de usar os truques do oleiro para convidar a matéria a se reinventar.
Desse encontro nasceu uma coleção exclusiva de quatro porta-ovos gourmet, coroados por seus próprios ovos de chocolate. O objeto utilitário, que é o porta-ovos, ganha assim uma dimensão quase escultural, na fronteira entre a arte e a gula.
Os porta-ovos são fabricados em esmalte “pó de chá”, para um acabamento fosco e delicado. Cada um abriga um ovo para descascar, composto por um recheio de amêndoa e avelã coberto por uma casca de chocolate amargo ou ao leite, como um tesouro suspenso.
Enquanto a cerâmica apresenta linhas salientes e um tom mate, o chocolate responde com suas curvas generosas e sua superfície livre que capta a luz.
“Com esses porta-ovos, desejei criar uma ponte entre nossos dois mundos. Também era óbvio para mim que esses chocolates mereciam uma certa altura. O resultado é um universo alegre, dominando a copa da imaginação, no qual nossos olhos saltam de uma peça para outra para coletar guloseimas”, declara Jacques Monneraud.
La Mère de Famille, 35 rue du faubourg Montmartre, 9º arrondissement de Paris.
Coleção Ludique, de Pierre Hermé

Para a Páscoa de 2026, Pierre Hermé se divertiu com jogos de tabuleiro. Dardos, paciência, jogo de damas ou quebra-cabeças tornam-se seu campo de expressão. Neste exercício artístico e lúdico, cada peça nutre o corpo e a mente, proporcionando uma experiência sensorial extraordinária. O chocolate se torna matéria a ser explorada, a curiosidade se impõe, o jogo se torna efêmero. A imaginação toma conta em um turbilhão alegre a ser compartilhado com seus parceiros.
Embora as criações estilizadas lembrem em todos os aspectos as peças reais, ao olhar mais de perto ficamos cativados pelo savoir-faire e pela minúcia do trabalho com chocolate necessários à sua elaboração. As rodadas se sucedem, táticas, estratégicas, a arte do jogo torna-se Infinitamente gourmand.

“O jogo não tem limites. Ele aguça a mente, convida à paciência e à superação, exige agilidade e reflexão, equilíbrio e estratégia. Sozinho ou em grupo, cada um encontra seu prazer e, quando o chocolate entra na jogada, só queremos repetir essas partidas efêmeras. Para esta coleção, tive vontade de dar uma nova volta ao jogo, de me abrir para outros jogos, de tentar a sorte novamente com os gulosos”, , explica Pierre Hermé.
Para sua peça excepcional, Pierre Hermé transforma a máquina de “pegar peluches” das feiras em uma máquina extraordinária de chocolate. Os brinquedos se transformam em ovos de diferentes tamanhos de chocolate amargo, ao leite ou blond caramelizado, que podem ser escolhidos à vontade. Entre admiração, suspense e emoção, a mão se transforma em pinça para pegar o ovo dos seus sonhos.
Uma criação de quase 7 kg de chocolate que combina nostalgia e savoir-faire. Chocolate negro pure origine Belize, chocolate ao Leite & blond, infiniment praliné noisette, mendiants em edição ultra limitada a… duas unidades.
Pierre Hermé, 72 Rue Bonaparte, 6º arrondissement de Paris.
Borboletas de chocolate, de Nina Métayer

Para a Páscoa de 2026, Nina Métayer, eleita a melhor confeiteira do mundo em 2023 e 2024, escolheu a borboleta como tema central de uma coleção primaveril batizada de Éclosion.
A peça-chave da coleção é, sem dúvida, o ovo Éclosion, uma criação em edição limitada que brinca com o simbolismo da borboleta recém-saída de sua crisálida. A casca de chocolate amargo Mayan Red 70% de origem Honduras da Xoco Gourmet é recheada por dentro com um praliné de amêndoas e pinhões, com lascas de amêndoas torradas ao redor.
Uma borboleta de chocolate trabalhada e polvilhada com pó de bronze abre suas asas no topo, enquanto no interior se escondem um pequeno ovo Harmonie, pedacinhos de chocolate branco, ao leite e amargo, caramelos e avelãs recheados, lascas de chocolate crocante e quadradinhos salpicados de sementes de girassol. O conjunto pesa cerca de 1,3 kg, com uma altura total de 30 cm com as asas abertas. É tanto uma peça para presentear quanto para expor antes de devorá-la.

A linha também está disponível em formatos menores.
Vale destacar outra peça singular: o entreme Floraison, disponível na versão individual ou para compartilhar com oito a dez pessoas. Ele combina um biscoito com raspas de laranja, uma mousse bávara com infusão de bagas verdes de Sichuan da Terre Exotique, um creme de osmanthus e um chantilly florido com notas frutadas. Uma borboleta em tuile de chocolate coroa o conjunto.
Pâtisserie Nina Metayer, 20 Rue Théodore Deck, 15º arrondissement.

ALAIN ROUSSEAU vive na capital francesa há 30 anos, mas morou e trabalhou em São Paulo durante oito anos. Fala fluentemente o português e diz que sua alma é brasileira. Apaixonado por arte e gastronomia, ele é o que os franceses chamam de bon vivant, alguém que gosta de descobrir novidades, compartilhadas aqui semanalmente com seu olhar refinado.