POR ALAIN ROUSSEAU
O museu parisiense da moda, Palais Galliera, em parceria com a maison Chanel apresenta uma exposição apaixonante para todos os amantes da moda — e também para os demais: Tisser, broder, sublimer. Les savoir-faire de la mode. Une invitation à découvrir l’art de l’ornement à travers le motif de la fleur. (Tecer, bordar, sublimar. Os saberes da moda é um convite para descobrir a arte da ornamentação por meio do motivo da flor), que ficará aberta ao público até outubro de 2026.
Nesta exposição, o visitante descobre os segredos da arte do ornamento: renda, bordado, flores artificiais ou tecelagem. A flor, motivo incontornável que inspira os criadores e revela a delicadeza das técnicas artesanais, torna-se assim o fio condutor da exposição.
Vamos mergulhar na história dos ateliês mais prestigiosos da alta-costura parisiense, do século XVIII até os dias atuais.
A FLOR É A GRANDE INSPIRAÇÃO!

“Esta exposição, apresentada nas galerias Gabrielle Chanel (instaladas em caves abobadadas de tijolos vermelhos e pedras aparelhadas), é a primeira parte de uma série em três etapas: após a ornamentação, estão previstos os saberes do corte e da modelagem (em dezembro de 2026) e, em seguida, os materiais (em dezembro de 2027)”, explica a curadora da mostra, Marie-Laure Gutton, responsável pelas coleções de acessórios. E ela acrescenta: “Costumamos apresentar nossas obras pelo nome da casa de costura. Também quisemos refletir sobre todos os atores que participam dessas criações e compreender os ofícios que se escondem por trás delas”.
A curadora afirma ainda que,“para abordar esses saberes, escolhemos uma temática específica: a flor. Conhecemos seu simbolismo e seu uso nas artes decorativas e na moda. Foi uma forma de comparar essas técnicas ornamentais, de brincar com volumes, texturas e brilhos, tendo um mesmo motivo como referência para comparação. Segundo ela, esse motivo da flor — desde o século XVIII inscrito nas artes decorativas francesas e nas artes têxteis, especialmente com a produção de Lyon — aparece nos guarda-roupas masculinos e femininos do século XVIII até os dias atuais.

O resultado é impressionante: são mais de 350 obras expostas, reunindo peças das coleções do museu e empréstimos de grande prestígio. Entre elas, dois vestidos emblemáticos do patrimônio Chanel testemunham a virtuosidade da maison. Bordados delicados, rendas de Chantilly ou de Alençon, flores artificiais… cada detalhe conta séculos de tradição e excelência.
A exposição se desenvolve em dois momentos. A galeria das técnicas revisita cinco técnicas ornamentais muito presentes nas coleções do Palais Galliera: a tecelagem, a estamparia, o bordado, a renda e as flores artificiais.
Já a galeria dos ofícios volta-se para as pessoas que atuam nesses métiers d’art: plumassier (artesão de plumas), bordador, florista artificial, parurier (artesão de adornos), permitindo compreender, por meio deles, a especificidade de cada profissão.
GALERIA DAS TÉCNICAS
No início da visita, descobre-se uma primeira vitrine que apresenta algumas peças emblemáticas das coleções do museu, como um robe masculino do século XVIII, um conjunto de Walter Van Beirendonck, um vestido da condessa Greffulhe em renda bordada, até um vestido de Christian Lacroix para Patou, com um buquê de flores artificiais que pontua o decote de maneira surpreendente e elegante.
Essas técnicas são abordadas, como mencionado, por meio do tema da flor, um motivo incontornável. Suas múltiplas variações permitem apreciar os jogos de materiais, o tratamento das cores, dos volumes ou de sua disposição, conforme as estações. Do tecido brocado de um colete do século XVIII à impressão a laser de um conjunto Balenciaga, da renda de Chantilly ao camélia de Gabrielle Chanel, a exposição destaca a grande diversidade de técnicas, ao mesmo tempo em que questiona sua simbologia e seus usos.

A cenografia, deliberadamente escura, realça peças extremamente coloridas, criando um contraste de grande impacto estético.
GALERIA DOS OFÍCIOS
Aqui, o foco recai mais sobre os objetos, ferramentas e detalhes que permitem compreender concretamente como essas peças são realizadas, tornando a moda mais acessível e mais fácil de entender por dentro.
Descobrem-se assim ofícios frequentemente pouco conhecidos e aqueles que os exercem — verdadeiros artesãos da sombra: criadores têxteis, bordadores, plumassiers, paruriers florais — que fizeram de Paris um território privilegiado desses saberes excepcionais, constantemente renovados.

Amostras de tecidos e mesas equipadas com lupas convidam o público a observar, examinar e contemplar as obras para compreender a complexidade dos gestos que se escondem por trás de cada criação.
Mas, fique tranquilo: embora a exposição valorize saberes que são explicados de maneira bastante pedagógica, ela continua sendo, acima de tudo, uma exposição de moda, na qual se descobrem inúmeros vestidos — muito mais do que se poderia imaginar a partir do título da exposição, com maior ênfase no resultado final do que nas etapas de fabricação.
O PALLAIS GALLIERA

A exposição é realizada no Palais Galliera, construído no final do século XIX a pedido de Marie Brignole-Sale, duquesa de Galliera, para abrigar sua rica coleção de arte. Desde sua origem, o palácio foi concebido como um museu e nunca serviu como residência.
Sua arquitetura é livremente inspirada na Renascença italiana e nos palácios do arquiteto veneziano Palladio, estética muito popular no século XIX, conhecida como estilo Beaux-Arts. Esse estilo é frequentemente utilizado na criação de edifícios públicos. De um conjunto composto por múltiplas referências, a inspiração renascentista predomina tanto no tratamento das monumentais janelas envidraçadas — que evocam as janelas serlianas tão caras a Palladio — quanto no das fachadas. O Palais Galliera possui duas: uma voltada para a rua e outra para o jardim.
Foi a empresa de Gustave Eiffel, o criador da torre que leva seu nome, que construiu o palácio. Seu nome, aliás, aparece nos alvarás de construção com a menção: “Serralheria e ferragens, Sr. Eiffel, empreiteiro”. Os corrimãos das escadas, as janelas envidraçadas e as grades do square Brignole-Galliera saíram dos mesmos ateliês que produziram a Torre Eiffel!

ALAIN ROUSSEAU tem dois amores: Paris e Brasil. Vive na capital francesa hás 30 anos, mas morou e trabalhou em São Paulo durante oito anos. Nunca mais se desligou do país. Apaixonado por arte e gastronomia, ele é o que os franceses chamam de bon vivant, alguém que gosta de descobrir novidades e que vai trazê-las aqui toda semana.