ALAIN ROUSSEAU
Desde a inauguração, há dez anos, da Canopée, Les Halles, bem no coração de Paris, passou por uma grande transformação, tornando-se hoje um dos bairros mais cobiçados da cidade luz.
A seguir, um passeio, em quatro etapas, pelo melhor deste bairro parisiense.
Referência da culinária tradicional

Para mim, o La poule au pot é um dos melhores restaurantes de Paris para os amantes da culinária tradicional francesa, que chamamos de bourgoise (burguesa). Aqui, só se encontra o autêntico e é muito, muito bom.
Dizem que o chef Jean-François Piège, que dispensa apresentações, sempre sonhou em ter sua própria brasserie. Com o restaurante, uma instituição do bairro de Les Halles há mais de 80 anos, pode-se dizer que ele mais do que realizou seu sonho!
No cardápio, apenas clássicos dessa culinária tradicional das nossas avós, que o chef reinterpreta à sua maneira. Encontramos, assim, coxas de rã com salsa picada, blanquette de vitela à moda antiga, hachis Parmentier, bochecha de boi ou ainda caracóis na casca.

E para reforçar ainda mais sua ligação com a tradição, ele teve a ideia genial de manter a decoração original, com suas tapeçarias adornadas com cachos de uva e seus painéis de madeira e colunas art déco em mosaico.
Parabéns, Monsieur!
La poule au pot, 9 rue Vauvilliers, 1º arrondissement.
O templo das plantas

Atenção: uma raridade. A Mégie não se assemelha a nada que já se conheça. É, ao mesmo tempo, um espaço dedicado à botânica, à decoração e aos prazeres gastronômicos.
O local é um mix de loja de plantas, concept store, galeria de artesanato e cantina.
Por trás do projeto estão Anne-Sophie Labruyère e Emmanuelle Tonnellier, duas amigas unidas pelo mesmo gosto pelas coisas belas, pela gastronomia e pelo trabalho artesanal. Juntas, elas imaginaram um espaço onde o mundo vegetal não serve apenas como decoração, mas se torna o fio condutor de uma experiência que combina criação, convívio e arte de viver.
Localizada na extensão da Quinquaud Le Jardin, a loja de Emmanuelle Tonnellier, a Mégie reúne plantas, flores, objetos artesanais e peças dedicadas às artes da mesa. A seleção evolui ao ritmo das estações, dos encontros e das descobertas das fundadoras, com a ambição de transformar o local em uma casa viva, em vez de um estabelecimento comercial estático.

A cenografia, concebida pelo Hamesha Studio, inspira-se na estética wabi-sabi e privilegia os materiais brutos. Madeira, pedra, metal e plantas suspensas estruturam o espaço, enquanto uma árvore instalada no centro do local constitui sua peça-chave.
A Mégie também possui uma vertente gastronômica. A cantina oferece criações doces e salgadas, chás e petiscos para saborear no local ou levar para casa.
A escolha do cais da Mégisserie, obviamente, não é aleatória. Historicamente associado aos ofícios, às lojas e aos mercados relacionados ao mundo vegetal, o bairro mantém uma identidade singular em frente à Île de la Cité.
Mégie, 2 ter, quai de la Mégisserie, 1º arrondissement.
Fundação Pinault: um símbolo da arte contemporânea

Sob a grandiosa cúpula da Bolsa de Comércio, François Pinault, fundador e dono do grupo de luxo Kering (Gucci, Balenciaga etc), criou um dos cenários artísticos mais fascinantes de Paris.
O edifício histórico, antiga Bolsa de Comércio de Paris, transformado pelo arquiteto japonês Tadao Ando — ganhador do Prêmio Pritzker em 1995 —, abriga as obras da Coleção Pinault em um percurso que combina exposições temporárias, instalações monumentais, performances, palestras e projeções.

Mesmo que a arte contemporânea o deixe perplexo, o local vale a visita por sua arquitetura e sua incrível rotunda, que se tornou um verdadeiro ícone parisiense. E para os apreciadores da boa culinária, o La Halle aux grains, restaurante dos chefs Michel e Sébastien Bras, está localizado no 3º andar.
Atualmente, a Fundação apresenta a exposição Remember me, que celebra os 200 anos da invenção da fotografia.
Bourse de Commerce – Coleção Pinault, 2 rue de Viarmes, 1º arrondissement.
A embaixada gastronômica do Japão

Em frente à Fundação Pinault, basta abrir a porta do iRASSHAi para mudar radicalmente de cenário.
Este imenso espaço dedicado à gastronomia japonesa reúne sob o mesmo teto uma mercearia, uma cantina, um café-bar e um restaurante mais sofisticado.
Na seção de mercearia, dá para abastecer-se de miso, molhos, macarrão, saquês e outras delícias japonesas para levar para casa.

Para fazer um lanchinho no local, vá ao Shokudo e seus pratos japoneses pensados para serem saboreados sem cerimônia, enquanto o Biwan se apresenta como um restaurante mais refinado.
E para uma pausa mais leve, o Kissaba funciona como café durante o dia e se transforma em bar de temaki à noite.
Um verdadeiro pedacinho do Japão bem no meio de Les Halles.
iRASSHAi, 40 rue du Louvre, 1º arrondissement.

ALAIN ROUSSEAU vive na capital francesa há 30 anos, mas morou e trabalhou em São Paulo durante oito anos. Fala fluentemente o português e diz que sua alma é brasileira. Apaixonado por arte e gastronomia, ele é o que os franceses chamam de bon vivant, alguém que gosta de descobrir novidades, compartilhadas aqui semanalmente com seu olhar refinado.