POR ALAIN ROUSSEAU
Esta semana, como o sol está brilhando (finalmente!) e as temperaturas estão quase primaveris (entre 18ºC e 20ºC), eu te convido para um passeio por um dos bairros mais míticos de Paris: Pigalle!
Localizado no sopé da colina Montmartre, na divisa entre os 18º e 9º arrondissements, o bairro imortalizado pelo filme Moulin Rouge, que conta a história do amor trágico entre a dançarina Satine (Nicole Kidman) e Christian (Ewan McGregor), um jovem escritor inglês, Pigalle é historicamente o bairro da festa e dos bandidos.
No final do século XIX, muitos artistas como Vincent Van Gogh, Salvador Dalí e Pablo Picasso se inspiraram nessa efervescência particular para suas obras – ou frequentavam regularmente alguns estabelecimentos do bairro, como o Chat Noir ou o Moulin Rouge.
Por volta de 1910, a praça Pigalle se tornou o ponto de encontro dos bandidos que frequentavam seus cafés, como La Nouvelle Athènes, Le Petit Maxim’s ou L’Omnibus. Local de acertos de contas entre eles, era também um importante ponto de prostituição, com muitos bordéis que foram definitivamente fechados após a Segunda Guerra Mundial.

Hoje, tornou-se um bairro badalado em plena renovação, como bem representa a elegante rue des Martyrs que, com seus 900 metros de extensão, é um verdadeiro resumo das diferentes facetas de Pigalle.

AS ORIGENS
Reza a lenda que São Denis, primeiro bispo de Paris, e seus companheiros foram martirizados por decapitação em Montmartre, evento que explica o nome dado a esta rua que sobe sem interrupção até a colina de Montmartre. É o paraíso das lojas de alimentos de qualidade, com suas padarias, queijarias, delicatessens, peixarias… Uma profusão igualmente impressionante de lojas de moda, cabeleireiros, óticos, bem como pela sua vida noturna com clubes e cabarés.
A padaria que enlouquece todo o bairro

O antigo padeiro dos Compagnons du Devoir, Hugues Mestreaud, instalou sua padaria, Le pain retrouvé (O pão reencontrado), que funciona o dia todo, em um ambiente campestre e eclético. Paletes e balcões de madeira abrigam uma variedade infinita de doces (babka de pistache, brioches pralinés, panetone no final do ano, tortas doces bourdalue com frutas da estação, sem esquecer um tradicional pudim de dar água na boca, bem como uma grande variedade de pães artesanais (trigo pequeno, torta de centeio, khorasan) com fermento natural e fermentação prolongada. Em suma, todos encontram o que procuram em um dos endereços mais movimentados da rua.
Atenção: no fim de semana chegue cedo, a fila começa às 10h da manhã!
Le Pain retrouvé, 18 rue des Martyrs, Paris 9º arrondissement.
O clube de travestis mais divertido de Paris: Chez Madame Arthur

É o mais antigo cabaré de travestis de Paris, bem no coração de Pigalle. Suas “criaturas” tomam conta do palco todas as noites com temas diferentes, mas com um ponto em comum: a interpretação deliberadamente aproximada de canções cult, improvisações (às vezes, muito picantes) com o público e um bom humor francamente contagiante.
A partir das 22h, peça uma bebida no bar e procure um bom lugar (em pé) para aproveitar ao máximo o show às vezes (muitas vezes!) absurdo conduzido pela sexy Maud’Amour (musa do estilista Jean Paul Gaultier), cercada por uma equipe colorida e totalmente maluca. Nunca se sabe realmente em quem ou no quê você vai se deparar!
Cabaret Madame Arthur, 75 rue des Martyrs, Paris 18º.
O bar mais secreto de Paris: Maison Souquet

A poucos passos da rue des Martyrs, atrás de uma porta discreta, esconde-se um dos bares mais exclusivos da capital: o do hotel Maison Souquet.
Inspirado nos bordéis da Belle Époque do bairro, ele oferece uma atmosfera aconchegante, sensual e atemporal. Idealizado pelo famoso decorador Jacques Garcia (Hôtel Costes, Le Fouquet’s na Champs Elysées, La Mamounia em Marrakech), o local lembra mais um clube privado do século XIX do que um estabelecimento clássico, com coquetéis exclusivos e um serviço ultra personalizado.
A decoração é composta por tecidos grossos, veludos profundos, afrescos, luminárias preciosas -o decorador mistura indiferentemente influências do Segundo Império, orientais e napoleônicas.
Detalhe: parte integrante do hotel com o mesmo nome, o bar só está acessível aos hóspedes ou mediante reserva.
Destaca-se também um spa, que pode ser totalmente privatizado, bem como uma piscina interior.
Maison Souquet 10 rue de Bruxelles, 75009 Paris

ALAIN ROUSSEAU vive na capital francesa há 30 anos, mas morou e trabalhou em São Paulo durante oito anos. Fala fluentemente o português e diz que sua alma é brasileira. Apaixonado por arte e gastronomia, ele é o que os franceses chamam de bon vivant, alguém que gosta de descobrir novidades, compartilhadas aqui semanalmente, e tem um olhar refinado.