ALAIN ROUSSEAU
Esta semana, convido vocês a uma viagem no tempo para descobrir as origens do requinte à francesa: o Museu das Artes Decorativas propõe, ate o 5 de julho, que vivamos um dia na vida de uma família aristocrática do século 18, percorrendo os cômodos de sua mansão. Graças a mais de 550 peças, a maioria delas retiradas de seus acervos, o museu consegue uma imersão total no cotidiano anterior à Revolução Francesa, incluindo os sons e os aromas, graças a instalações sonoras e dispositivos olfativos criados pela perfumista Daniela Andrier. A visita é guiada.
O despertar e a higiene pessoal

Às 7h, em seus respectivos aposentos, soa a hora de acordar para o senhor e a senhora. Com delicadeza, realizam-se as orações e eles tomam um caldo de carne e legumes em uma porcelana disposta sobre uma bandeja de prata.
Em seguida, dá-se início ao grande cerimonial da higiene pessoal, ritual teatralizado que frequentemente se desenrola sob o olhar de um círculo de íntimos. A exposição nos mostra que essa higiene matinal era “a seco”: como não havia água corrente, a jarra e sua bacia, as caixas de sabonete e o bidê constituíam o essencial de uma higiene mais simbólica do que concreta.
A peruca é empoada, as mechas são colocadas com arte, o perfume dá o toque final a esse dia que pode começar.
Um dia passado em casa
Para o senhor, o dia decorre na maioria das vezes na biblioteca, onde ele cuida de suas contas, mantém sua correspondência, cumpre suas obrigações ou se dedica ao cultivo intelectual, como um verdadeiro cavalheiro do século XVIII. Antes do jantar, a senhora lê em seu boudoir, sentada em uma otomana, escreve ou desenha em sua escrivaninha chamada felicidade do dia. Admira-se o cuidado com que essas senhoras sabiam confeccionar pequenos acessórios em “sablés”, resplandecentes com pérolas entrelaçadas.
Serviço à francesa

Os gostos e os costumes culinários são particularmente interessantes. À mesa, serve-se “à francesa”, com todos os pratos colocados ao mesmo tempo; admira-se os “surtouts”, peças extraordinárias de detalhes, destinadas a alimentar a conversa ou divertir os convidados.

Após o jantar, a prática da colação, tomada indistintamente no quarto, no boudoir, em um pequeno gabinete ou no salão com os amigos, reveste-se de grande importância: consome-se agora chocolate, chá ou café, produtos de luxo importados de regiões distantes e reservados à elite, que são servidos em peças de ourivesaria e porcelana concebidas especialmente para esse fim.
Destinado a amenizar o amargor dessas bebidas da moda, consumidas por suas virtudes revigorantes, ou mesmo afrodisíacas, o açúcar também é considerado um produto de luxo. Para evitar queimaduras, uma vez servido, a bebida é despejada da xícara no pires, que é levado aos lábios.
Noites repletas de entretenimento

Por volta das 23h, no salão, há um concerto de harpa, de cravo ou uma partida de jogo. Sejam baseados no acaso, no raciocínio, na destreza ou na adivinhação, os jogos fazem furor na alta sociedade. Para acompanhar as apostas, o melhor é, para ver por cima do ombro, apoiar-se em uma voyeuse – um desses móveis funcionais que a época produz da mesa de bolsa de água quente à mesa removível.
A hora de dormir

A exposição encerra-se com o último momento do dia: a hora de dormir. Homens e mulheres vestem uma camisa de noite branca após terem lavado o rosto. O senhor cobre a cabeça com um gorro de dormir, enquanto a senhora protege os cabelos, que mandou escovar longamente, com um gorro chamado dormeuse. Um lanche pode ser deixado sobre a mesa do quarto, caso surja uma fome leve durante a noite. Uma luz noturna difunde seu brilho pálido.
Essa arte de viver foi resumida por uma figura da época, o príncipe Charles-Maurice de Talleyrand, ministro de Napoleão e do rei Luís XVIII: “Quem não viveu nos anos próximos a 1789, não sabe o que é o prazer de viver”.
Musée des Arts décoratifs, 107, rue de Rivoli, 1er arrondissement.

ALAIN ROUSSEAU vive na capital francesa há 30 anos, mas morou e trabalhou em São Paulo durante oito anos. Fala fluentemente o português e diz que sua alma é brasileira. Apaixonado por arte e gastronomia, ele é o que os franceses chamam de bon vivant, alguém que gosta de descobrir novidades, compartilhadas aqui semanalmente com seu olhar refinado.